Book Review: Império do Medo – Andrew Hosken

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Este post vai ser dedicado à revisão de um livro que li recentemente: Império do Medo, de Andrew Hosken. Adianto desde já que é um livro de investigação fenomenal.

Andrew Hosken é um experiente jornalista de investigação da BBC. Especialista em conflitos no Medio Oriente, Hosken acompanhou e relatou os mais variados atentados levados a cabo por organizações terroristas. O Jornalista premiado com o One World Media Award, oferece-nos um livro, produto de uma investigação intensiva e de vivências pessoais, que nos proporciona uma visão profunda do Estado Islâmico e das condições em que opera.

Em Império do Medo, o autor transporta-nos pela insurgência de um grupo rebelde Iraquiano, que prolifera num ambiente enfermo e fragilizado pela guerra e corrupção, até ao auge da atividade do autoproclamado Estado Islâmico, em 2014.

Nas primeiras páginas do livro, o autor começa por nos dar uma visão geral sobre a atividade e as origens do atual EI.

O nascimento desta célula terrorista, que atualmente é o grupo terrorista mais rico e violento do mundo, remonta ao ano de 1999, ano em que Zarqawi assumiu liderança de um campo de treino para jihadistas no Afeganistão chamado Tawhid wa’l Jihad. Zarqawi é considerado o verdadeiro pai fundador do Estado Islâmico e rapidamente se tornou o terrorista mais procurado da historia.

O grupo sunita extremista tem como principais objetivos eliminar todos os infiéis a Alá (incluídos os xiitas e as minorias religiosas), implementar a Charia (as leis islâmicas fundamentadas na religião) através da violência extrema e constituir um califado que se estende desde a península ibérica à China.

Mas porquê e como surgiu este grupo?

O autor explora, ao longo da obra, a “combinação tóxica” de fatores que proliferava pelo Iraque e pela Síria e que permitiu a criação e o desenvolvimento de um Império do Medo, imposto pelo Estado Islâmico. Entre os fatores explorados encontram-se: a profunda corrupção no exercito iraquiano; o desmantelamento do governo de Hussein pelos EUA em 2003 e a falta de uma politica pós-invasão, que deixou o pais desorientado; um primeiro ministro sectário de aprofundou a divisão e o ódio entre os muçulmanos xiitas e os muçulmanos sunitas do Iraque, após a invasão de 2003;  a guerra civil Síria; a pobreza extrema provocada por anos de guerra e a incapacidade do governo, que se revelara injusto e imperdoável para com a minoria sunita do pais.

Contextualizando brevemente o assunto, Hosken explica que, aquando a Morte de Maomé, profeta do islamismo, em 632 d.C, os islamitas entraram em conflito pela questão da sucessão a Maomé. Este conflito deu origem à divisão do islamismo em dois ramos: os sunitas e os xiitas, que apesar de acreditarem no mesmo Deus (Alá) divergem em outras questões religiosas.

Este conflito dura até aos dias de hoje. Os sunitas quase sempre assumiram o controlo governativo, desde o século VII, impondo-se sobre os xiitas que, ao longo da historia, foram perseguidos e atormentados pelos sunitas.

Avançando no tempo, em 1979, Sadam Hussein, que pertencia ao Partido Baath, partido sunita do Iraque, assumiu o controlo pais, tornando-se Presidente e Primeiro Ministro. Rapidamente o seu governo tornou-se numa ditadura implacável que ficou marcada pela corrupção, pela violência e pela perseguição aos xiitas e a outras minorias religiosas

Apesar do Iraque ser constituído por uma maioria xiita, os sunitas controlavam todos os setores do país.

Alertados pela desumanidade da ditadura de Hussein, os países do Ocidente, liderados pelos EUA, intervieram no Iraque, depondo o governo sunita e assassinando o seu líder, Hussein, em 2003. Esta intervenção foi realizada na esperança de imposição de uma democracia justa no Iraque, em que xiitas e sunitas cooperassem cordialmente. Contudo, a esperança foi derrubada pela situação caótica que instalou no país após a destituição do governo de Hussein.

O governo que subiu ao poder, apoiado pelo EUA, após a destituição de Hussein, era maioritariamente xiita e revelou-se extremamente sectário, agravando a tensão entre xiitas e sunitas. As suas politicas inferiorizaram os sunitas, obrigando-os a abandonar os cargos de função pública e a ostracizarem-se.

Esta inversão de papeis no poder entre xiitas e sunitas que originou o ostracismo dos sunitas foi um dos fatores que despoletou a atividade do grupo terrorista que mais tarde se viria assumir como um califado, liderado pelo autoproclamado Califa, Baghdadi, sucessor de Zarqawi.

O autor mostra-nos como o Estado Islâmico e os seus carismáticos lideres, Zarqawi e, Baghdadi se aproveitaram das fragilidades de um país destruído para conquistarem regiões e imporem a Charia através da opressão e da violência desumana.  São relatados “atos de selvajaria” extrema contra homens, mulheres, crianças, idosos e deficientes, sem distinções.

Ao longo do livro são explorados tantos outros assuntos como a relação tumultuosa entre os lideres do Estado Islâmico e o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, as relações governativas corruptas do Iraque, o papel desempenhado pelos EUA na degradação do estado do país, entre outros assuntos que se interessam conhecer.

A escrita do autor é clara, tornando a leitura do livro simples e de fácil compreensão. Através da leitura do livro é percetível a dimensão da investigação levada a cabo pelo autor. Os depoimentos e testemunhos de pessoas que desempenharam um papel importante na historia retratada enriquecem a leitura e dão-nos a conhecer várias perspetivas sobre a realidade.

O livro é muito esclarecedor, oferecendo-nos uma visão sobre todos os fatores (religiosos, governativos, económicos, históricos e sociais) por detrás da situação extrema vivida no Médio Oriente.

Não tenho nada negativo a apontar sobre este livro, tirando o facto de as notas bibliográficas ocuparem cerca de 50 páginas.

Esta obra é uma leitura obrigatória para quem quer compreender a situação atual dos países do Medio Oriente e as motivações do Estado Islâmico, sem olhar apenas ao que é relatado nos Órgão de Comunicação Social…

 …pois a realidade é mais complexa do que aquilo que a nossa visão e julgamento superficiais contemplam.  

Avaliação Geral do Livro: 19/20

 

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