Comunicar é… : Metalogues Insight

Os acontecimentos sociais que marcaram o século XX, como as Grande Guerras, deram origem à necessidade de estudar o papel da comunicação nas relações humanas.

Contudo, apesar de grandes esforços no sentido de compreender os processos relacionais e comunicacionais do ser humano, os elementos que os constituem e os sistemas que os regem, a definição de comunicação não é unanime e a sua total compreensão estará longe de ser alcançada.

Gregory Bateson foi um cientista epistemológico que focou o seu interesse na antropologia e nas relações humanas. Integrou a escola de Palo Alto e foi fortemente influenciado pela Teoria dos Sistemas e pela Cibernética. Bateson foi um dos mais importantes investigadores que tomaram como objeto de estudo a comunicação e as relações humanas.

A obra Metadiálogos de Gregory Bateson contempla uma serie de pontos-chave que integram e descrevem o funcionamento do processo comunicativo, que são apresentados sob a forma de conversas com a sua filha. Tal como o nome da obra indica, os diálogos falam sobre o “diálogo”.

Através da síntese breve de cada diálogo pretendo mostrar as principais conclusões retiradas sobre os elementos e o funcionamento do processo comunicacional. Esta obra dá-nos a conhecer a visão singular de Bateson sobre o tema, o que irá ser útil na compreensão da comunicação.

 

“Porque é que as coisas se desarrumam?”

A filha começa por perguntar ao pai porque é que as coisas se desarrumam. Depois de alguma ponderação, ambos concluem que as coisas só deixam de estar arrumadas quando alguém lhes toca. Concluem também que apesar de todas as pessoas concordarem sobre a noção de “desarrumado”, a noção de “arrumado” é diferente, varia de pessoa para pessoa.

Depois de vários exemplos, Bateson explica à sua filha que, as coisas se desarrumam simplesmente porque existem mais estados de “desarrumação” do que de “arrumação”.

 

No primeiro diálogo com a sua filha o autor apresenta-nos uma perspetiva sobre a noção de entropia.

Segundo a perspetiva da Teoria da Informação, a entropia define a imprevisibilidade dos acontecimentos, ou da comunicação. Quanto mais imprevisível for uma mensagem, maior será o seu caracter informativo. De certo modo, a ordem desarrumada e aleatória sobre os tópicos deste metadiálogo permitiu a que ambos chegassem a uma conclusão de elevado teor informativo.

 

“Porque é que os Franceses mexem muito os braços?”

A principal conclusão que a filha extrai da conversa é que o movimento dos braços que os franceses efetuam enquanto falam é uma forma de dizer algo acerca da forma como um francês se sente em relação ao outro.

Depois de muita ponderação e argumentação, o pai explica que os gestos que o francês efetua carregam uma mensagem que não faria sentido se fosse traduzida por palavras. O tom e ritmo das palavras também carregam uma mensagem que dificilmente seria traduzida por palavras.

A linguagem é composta primeiramente por gestos e tons de voz. São estes elementos que conduzem a significação das palavras.

 

Este metadiálogo ilustra claramente a importância da comunicação não verbal no processo relacional. Podemos perceber que a comunicação gestual e corporal carrega importantes mensagens informativas, que não podem ser traduzidas para a linguagem verbal. Os gestos, os comportamentos, o tom de voz e o ritmo do discurso dos indivíduos durante a conversação transportam mensagens que permitem aos intervenientes no processo comunicacional perceber o estado emocional dos indivíduos, o que estes sentem em relação aos outros ou em relação ao conteúdo da conversação, etc. Estas pistas permitem aos intervenientes regular a conversação ou até mesmo cessá-la.

Pode -se concluir também que a comunicação não verbal é fortemente influenciada pela dimensão cultural dos indivíduos. Tal como a filha de Bateson vai percebendo ao longo do diálogo, a componente gestual e comportamental da comunicação pode ter diferentes efeitos nos indivíduos consoante o seu background cultural – mexer muitos os braços pode ser natural para um francês, mas um japonês pode achar o gesto ofensivo durante a conversação.

 

“Acerca de jogos e de se ser sério”

As principais conclusões que os intervenientes retiram deste diálogo são que as conversas são jogos se os participantes tiverem emoções e intenções diferentes. Beatson e a filha concluem também que as suas conversas têm regras que regem a ordem e a ligação das suas ideias, apesar destas regras não serem claras. Beatson afirma que a regra base é a lógica, que rege a forma como se agrupam os elementos das ideias quando estas são desmontadas. Quando isso não acontece, a conversa desarruma-se e cria-se uma confusão de ideias e pensamentos… o que vai ao encontro do objetivo do jogo: criar novo conhecimento.

Beatson afirma no fim que o propósito do jogo é como o propósito da vida: encontrar as regras que a regem, as quais estão sempre a mudar e não se conseguem descobrir!

 

Este diálogo ilustra a ideia da hermenêutica e da sequencia dialógica. Durante o diálogo Bateson cria um paradoxo entre a palavra “jogo” e “brincadeira”. A confusão que se desenrola durante o diálogo mostra claramente que a interpretação do sentido das palavras é um fenómeno subjetivo e que por vezes não possui uma estrutura de regras claras. Isto deve-se à subjetividade da interpretação das ideias e conceitos da conversa. Contudo chega-se à conclusão de que apesar de existirem regras que regem a organização e sequência de ideias, (que se prende com a lógica), estas estão sempre em transformação e por isso a sua descoberta e compreensão total é inalcançável.

Outra conclusão implícita prende-se novamente com a noção de entropia: deve existir uma certa desarrumação de ideias para alcançar-mos um estado de informação.

“Pai, quanto é que tu sabes?”

Nesta conversa, a filha pergunta se é possível medir o conhecimento.

A conclusão a que pai e filha chegam é que não é possível medir o conhecimento, de forma quantitativa ou qualitativa. Porque o conhecimento não é formado a partir da adição de ideias, mas sim a partir da sua combinação.

A filha conclui que temos apenas uma grande ideia, que se divide em muitos ramos (sendo estes ramos a combinação de conhecimentos)

 

Daqui podemos admitir que , tal como o conhecimento, o diálogo é formado a partir da combinação de um conjunto de ideias, da qual advêm novos conhecimentos, ou seja, a troca de informação entre os participantes permite chegar a novas ideias e dar continuidade ao diálogo. Esta continuidade da conversação está relacionada ao conhecimento implícito da existência de uma ordem que controla a direção e os contornos do diálogo.

 

“Porque é que as coisas têm contornos?”

No quinto dialogo, a filha de Bateson questiona o pai sobre o porquê da existência de contornos nas coisas.

Bateson reformula a questão: “Bem, e se fossem outras coisas – um rebanho ou uma conversa… Essas coisas também têm contornos?

Assumindo que as coisas abstratas têm contornos, Bateson exemplifica que a tolerância pode por vezes apagar ou distorcer o contorno das coisas. Mas que a falta dela pode ter o mesmo efeito.

Quando as coisas não assumem contornos, podem ser imprevisíveis, tal como os animais e os seres humanos. Mas da mesma forma que são imprevisíveis por serem seres vivos, os seres humanos devem ser algo previsíveis para se poderem integrar na sociedade.

 

Bateson conclui, que de facto, existe um contorno nas coisas abstratas, como nas conversas. Mas que esse contorno só é verificável quando a conversa termina, quando temos uma perspetiva inteirada da conversa, quando nos vemos fora dela. Bateson diz que, se fosse possível ver o contorno da conversa durante a mesma, então as pessoas seriam previsíveis (e quando as coisas são previsíveis, não existe nova informação)

Portanto, comunicar é ser imprevisível de modo a criar informação e ser previsível de modo a que o diálogo não se dissipe.

 

“E porquê um cisne?”

Este diálogo oferece-nos uma visão sobre as relações metafóricas entre a realidade e o referente.

O pai e a filha falam acerca da relação entre o cisne (Da peça Lago dos Cisnes) e o humano que o interpreta. Existe uma relação metafórica multidimensional: o ser humano finge ser um cisne e a figura do cisne representada pelo ser humano finge não ser um humano a representar um cisne.

Bateson aborda o exemplo do pão e do vinho na religião cristã: para alguns o pão e o vinho são uma metáfora do sangue e corpo de Cristo, e para outros o pão e o vinho são um sacramento. Logo, se para alguns o ballet é uma metáfora então para outros é um sacramento.

A partir desta ideia, Bateson afirma que a decisão de o ballet ser uma metáfora ou um sacramento não parte só do publico e só da dançarina. Na verdade, não parte de nenhuma das partes, é um segredo e uma coisa inconsciente.

O pai conclui que o “fingir ser”, o “fingir não ser” e a “realidade”, quando combinados, dão origem a um sentido único, a um sacramento.

 

Concluindo, esta conversa entre pai e filha aborda, de certa forma, as diferenças e as motivações dos intervenientes no processo dialógico. O que é um sacramento para um dos intervenientes pode ser apenas uma metáfora para o outro. Isto significa, mais uma vez que, as relações que os indivíduos atribuem a um fenómeno e à realidade é meramente subjetiva e algo misteriosa.

“O que é um instinto?”

Este metadiálogo desenvolve-se à volta da questão do instinto.

A filha pergunta ao pai o que é um instinto e Bateson afirma que o instinto é um principio explanatório e que este explica tudo o que não explicação. A gravidade pode ser um principio explanatório: explica o que um fenómeno faz, mas não explica como o faz.

Bateson clarifica também que é fácil para o ser humano ser objetivo acerca dos instrumentos e ferramentas que pertencem exclusivamente ao intelecto humano, mas que é difícil ser objetivo acerca do lado mais primitivo do ser humano. É precisamente aqui que o principio da subjetividade entra – para explicar coisas que não têm explicação objetiva.

 

O instinto ilustra uma função fundamental da linguagem: invocar na mente do recetor uma ideia semelhante à do emissor sem necessidade de explicação. Isto é, quando o emissor usa o principio explanatório “instinto”, o recetor não necessita mais explicações porque sabe que, por si mesmo, o instinto já é uma explicação de um fenómeno.

Contudo, tal como Bateson indica no diálogo, o instinto é uma tentativa de tornar simples algo que pode ser complexo, o que pode provocar um desentendimento, ou um conhecimento errado do fenómeno. O mesmo acontece no processo comunicacional: ao invocar um conceito, ou ideia numa conversa, o recetor pode ter uma significação diferente da do emissor, provocando-se assim desentendimentos. Isto acontece porque a experiência da realidade é subjetiva e os indivíduos concebem a realidade de formas diferentes

Quando comunicamos, comunicamos conceções subjetivas da realidade e não princípios objetivos.

Através da análise dos Metadiálogos de Bateson podemos concluir que existem vários elementos que integram, constituem e caracterizam a comunicação: a entropia, a comunicação não verbal, regras e paradoxos, a medição e formação do conhecimento, os contornos da conversação, metáforas e sacramentos e o instinto.

Depois de uma reflexão sobre as breves conclusões aqui apresentadas, podemos afirmar que existe uma ligação entre todas as conclusões uma vez que estas apresentam princípios e conceitos semelhantes como a entropia, a subjetividade no processo comunicacional e a procura do conhecimento.

 

A comunicação está implícita em todas as ações e comportamentos do individuo. A comunicação é comunicar sobre comunicação, é criar informação através da partilha de conceções subjetivas da realidade. É um segredo, uma coisa inconsciente, é um instinto.

 

Bibliografia

BATESON, G. (1972). Metadiálogos. Gradiva. 2ª edição [1989]

CENTENO, M. J. (2009). O Conceito de comunicação na obra de Bateson – Interacção e regulação. Livros LabCom

HERWIG-LEMPP, J. (2013). Catchword: Explanatory Principle. KONTEXT.

 

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