A Cultura do Intelecto Europeu: Diagnóstico

A cultura.

Um conjunto de ideias, comportamentos e práticas sociais. A lei, a moral, as crenças e as artes. Uma língua e um território… tudo isto partilhado por um povo comum.

A cultura desempenha um papel central na vida do homem, já que esta representa a essência do ser humano e o molda. Esta reflete os códigos morais e normativos pelos quais guiamos a nossa vida e tomamos as nossas decisões.

George Steiner, professor e uma importante figura intelectual da modernidade que estuda a relação entre a linguagem, a literatura e a sociedade, acredita que a cultura é um importante fator de unificação na medida em que aproxima indivíduos que a partilham. Para o autor, a herança cultural é o que nos confere a verdadeira nobreza de espirito, a dignidade que o homem procura incansavelmente.

A cultura europeia, ou a ideia de Europa, tem a sua base nas ideias humanistas e na educação liberal, sendo esta o caminho para alcançar a dignidade humana e a nobreza de espirito, que se reflete somente no intelecto humano.

Desde Aristóteles a Freud, de Fernando Pessoa a Karl Marx, de Emanuel Kant a Van Gogh foram as inúmeras figuras humanistas das inúmeras áreas do conhecimento e das artes que traçaram a cultura europeia e contribuíram para o pensamento humanista.

A reflexão filosófico-cultural, outrora a essência da ideia de europa, e essencial à compreensão do desenvolvimento humano, tem sido, segundo Steiner, corrompida por uma “economia do conhecimento”, gerada pelo período do “fascismo da vulgaridade” em que atualmente vivemos. Pois, não poderia concordar mais.

Uma sociedade que despreza e ignora a nobreza de espirito, a sua herança cultural e que não cultiva as grandes ideias humanistas, está destinada à perda dos valores morais e à autodestruição. É necessário conservá-la e cultivá-la onde esta se esmoreceu, pois esta é o pertence mais valioso do Homem e o que o distingue dos restantes animais que habitam a terra.

Resultado do cultivo da cultura que enaltece a nobreza de espirito é a qualidade de vida, a satisfação que advém do conhecimento. Contudo, a cultura é frágil, pois facilmente pode ser derrubada por ditaduras de censura e por atos desumanos.

Na sua obra “Ideia de Europa”, Steiner anuncia 5 axiomas que caracterizam a cultura europeia. Estas são: o café, a paisagem a uma escala humana, a homenagem, a descendência dupla de Atenas e Jerusalém e a consciência de um tempo de extinção.

O café é um símbolo inegável da cultura Europeia. Representa o local de debate intelectual, um local de criação e difusão de conhecimentos e de desenvolvimento do pensamento filosófico, cientifico e artístico. Por estes centros de conhecimento passaram Fernando Pessoa, Freud, Karl Krauss, Musil, entre outros.

A Europa caracteriza-se por uma proximidade territorial, que tornou possível viajar a pé de centro em centro. A paisagem europeia é marcada pela medida do pé humano que rapidamente chegava a destinos para difundir as suas aprendizagens. A paisagem tem uma ligação intrínseca e primordial com o homem. Esta serve de inspiração para a criação de inúmeras obras artísticas ao longo dos séculos. Estas obras artísticas carregam o ritmo da passada do homem em cada verso, em cada pincelada, em cada argumento.

A cultura Europeia caracteriza-se também pela homenagem: em qualquer rua que passemos e qualquer praça de visitemos, grandes figuras que enriqueceram a cultura da Europa são homenageadas. Os seus nomes denominam os espaços, as ruas, as praças. Contudo, os memoriais espalhados pela europa não só contam historias das quais nos devemos orgulhar, mas também historias das quais o europeu sente uma profunda tristeza. O orgulho é por vezes assombrado de vergonha.

A cultura Europeia tem uma herança dupla de Atenas e de Jerusalém. A tradição grega de Atenas contribuiu para a construção da cultura da Europa com ideias humanistas, com a matemática, as artes, a metafisica, o ideal socrático de uma vida refletida, entre muitas outras. A filosofia moderna foi inspirada nas tradições gregas filosóficas cujo os autores bem conhecemos: Sócrates, Platão, Aristóteles. Os contributos das tradições hebraicas de Jerusalém passam pela ideia do Cristianismo, dos mandamentos morais e do diálogo com o transcendente. Einstein, Freud e Marx foram figuras intelectuais de origens judaica que muito contribuíram para a modernidade.

Contudo, existe um conflito de ideais que marca esta dualidade. Uma rivalidade entre a razão filosófico-cientifica e os imperativos da fé. A cultura da Europa é definida pela tentativa de negociação e conciliação destes dois contributos. Este conflito inicialmente intelectual conduziu a eventos catastróficos. Como o genocídio dos judeus. Stein afirma que esta perda levou consigo uma parte importante da cultura Europeia.

Por fim, a Ideia de Europa é caracterizada pela existência de uma ideia comum de extinção, de uma ideia de um “capitulo derradeiro” que compromete os ideais da Europa. Esta ideia de finito é inspirada pelo momento apocalíptico pregado pelo Cristianismo.

A cultura americana é confrontada com a cultura europeia. Percebemos que os territórios da América são impossíveis de percorrer a pé, que existem obstáculos impossíveis de ultrapassar, e que para os americanos, o céu europeu e os seus horizontes são sufocantes. A América não tem uma cultura de memorial como a Europa. As suas ruas são simplesmente enumeradas. Existe uma espécie de repúdio aos memorias por partes da cultura americana, que para ela são relembranças de destruição. Não há um sentido de celebração do passado nem da sua historia de conhecimento.

Estaremos perante o fim da Ideia de Europa?

Assistimos atualmente a um fenómeno de transfusão desta ideia de América para a Europa. O transporte dos seus modelos uniformizados, o crescente fenómeno de americanização, a uniformização da imagem mundial e a imposição da língua anglo-americana ameaçam a Ideia de Europa.

É imperativo encontrar uma solução que permita conciliar a uniformização politica e económica com as particularidades da Ideia de Europa.

O papel da religião Cristã marcou ambiguamente uma presença de grandeza e de devastação. Enquanto a Europa não confrontar este ódio que se esconde por baixo da manta da modernidade e da tolerância, o seu futuro não será promissor. Assistimos agora a um fenómeno crescente do agnosticismo e do ateísmo, que por um lado, despreza uma parte cultural da Europa, mas, por outro, aponta para a possibilidade de tolerância, que pode livrar a Europa de eventos semelhantes despoletados pelo ódio religioso.

Contudo Steiner possui uma atitude esperançosa face à sobrevivência desta cultura rica. O autor deposita esperança numa revolução contra industrial que venha por fim a uma vida definida pela posse de bens materiais, de vulgaridades que constituem obstáculos a uma cultura que enalteça a nobreza de espirito e a procura intelectual. A ideia da privacidade e do individualismo anárquico desapareceram devido ao consumo exacerbado e à uniformização dos modelos americanos.

Vivemos um período de “Despotismo do mercado de massas”, marcado pelo desinteresse dos jovens pela vida intelectual e artística. É necessária uma reorientação dos Meios de Comunicação Social que muito contribuem para este problema.

O autor culpabiliza em parte a geração mais velha, que permitiu que tal acontecesse. Steiner explica ainda a importância de reter a saída dos jovens cientistas europeus da Europa, oferecendo-lhes boas condições e oportunidades de carreira para contrariarem o caminho a que a Ideia de Europa se dirige.

 “É entre os filhos frequentemente cansado, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que «a vida não refletida» não é efetivamente digna de ser vivida.”

Deposita-se nos homens europeus a esperança de acordar a Ideia de Europa que se encontra adormecida, esmorecida. Deposita-se a esperança nestes homens contemporâneos para que encontrarem de novo satisfação na procura intelectual. Cabe-lhes procurem mais do que uma vida letárgica, guiada por “geringonças” de massificação e abstração intelectual. Estes homens, que nunca conheceram a nobreza de espirito, ou que talvez a tenham esquecido, vivem uma vida marcada por um sentimento de tristeza, vazio e pobreza de espirito inexplicáveis. Uma vida que pode ser enriquecida com a cultivação da Ideia de Europa, com a cultivação da nobreza de espirito, da dignidade. As oportunidades espreitam, só é preciso o “homem comum seguir as pegadas de Aristóteles”.

“Se conseguir libertar-se da sua própria herança negra, confrontando-a sem receios, a Europa de Montaigne, e Erasmo, de Voltaire e Immanuel Kant pode, uma vez mais, indicar o caminho a seguir.”

Bibliografia: STEINER, G. (2004). A ideia de Europa. Gradiva [2006] 3ª Edição. Lisboa

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s