The Long Lost Value – Bringing back to life what was left behind

Pelo titulo do post parece que vamos fazer uma expedição tipo Indiana Jones. É mais ou menos isso que pretendo: levar-vos numa viagem ao passado e ao que resta dele.

Quantos de nós já parámos para pensar o que rege a nossa vida? Para alguns é a fé, para outros motivações e aspirações. Tudo isto são pilares fundamentados em valores. Mas pensamos realmente em que tipo de valores carregamos connosco, nos conduzem ao longo da nossa vida, e incentivam as nossas decisões e ações?

Se reconhece com clareza que carrega consigo um quadro de valores especifico, poderá estar no bom caminho. Se ainda não pensou sobre isso ou acredita que tal não existe, provavelmente sofre do niilismo característico desta sociedade de massas em que vivemos.

Voltemos então ao passado.

A nobreza de espírito foi para alguns intelectuais o seu mote de vida. Sócrates, Thomas Mann, Goethe, von Hutten, Espinosa, a lista continua. Von Hutten, humanista do séc XV-XVI, percebeu ao longo da sua vida que a nobreza de espírito não se reduz a algo característico da linhagem aristocrática. Nascer no seio de uma família nobre é destinado pelo acaso. A verdadeira nobreza de espírito é aquela que nobilita o espírito: a ciência, as artes, a beleza, o pensamento, que permitem que o humano descubra a sua dignidade que se reflete no seu intelecto.

Mas a nobreza de espírito também não se reduz a um ideal de conhecimento. Esta é a arte de guiar a vida em concordância com princípios e valores nobres, justos e moralmente corretos. É um ideal de vida. Este alicerce moral enaltece o culto da alma humana e a procura do significado da existência do homem.

Este ideal de vida é dependente de um fator importante: a Liberdade. Quem não é livre não pode viver com a verdade. A opressão não permite a liberdade de pensamento, da procura do conhecimento, do cultivo da nobreza de espírito. A opressão, característica de regimes totalitaristas e fascistas foi um fenómeno que veio enfraquecer este ideal, que hoje se encontra escondido debaixo das pedras.

Escavemos um pouco.

A dimensão politica, segundo o pensamento humanista, tem um objetivo claro: cultivar a liberdade de pensamento, de opinião e a tolerância.  Este ideal é traduzido pela existência de uma democracia e de uma educação liberal.

Para além da liberdade politica, a procura do conhecimento só é possível quando o humano vive liberto da religião, do poder e do dinheiro. Estes três fatores condenam a existência da tolerância, da justiça e da imparcialidade necessárias para a procura da verdade.

Portanto, quem vive livre destas dimensões vive verdadeiramente livre e vive para a verdade.

Mas este ideal, que enaltece uma vida regida por um quadro de valores intemporais e coletivos, como a justiça, a tolerância, a liberdade, a ética, encontra-se perdido. Porque?

As razões são principalmente duas. O niilismo e a politização da mente humana.

O niilismo é a visão cética face às interpretações da realidade que se caracteriza pela ausência de valores intemporais e absolutos, nomeadamente, os que a nobreza de espirito carrega. Esta ausência de valores coletivos e absolutos dá lugar a uma noção de individualismo e de moralidade individual. Esta corrente de pensamento pode formar indivíduos amorais, que, por vezes, regem a sua vida pelo mote de que tudo é permitido.

 

“A Liberdade – difícil e trágica liberdade – já não é mais o espaço de que o indivíduo necessita para praticar a aquisição da dignidade humana; é antes a perda dessa dignidade a favor da idolatria do ideal animal: tudo é permitido.” – Rob Riemen

 

O conceito de liberdade passa a significar algo distante das suas origens. Deixa de existir uma distinção intemporal entre o bem e o mal, o moral e o imoral. Esta liberdade absoluta suprime a justiça, onde tudo vale.

O niilismo é característico, como se pode deduzir, de uma sociedade de massas, de uma sociedade descaracterizada. O individualismo que surge deste pensamento ataca a civilização e o tecido conectivo da ordem social.

E assim voltamos ao presente – a uma sociedade de massas descaracterizada.

De onde surgiu esta sociedade de massas?

Uns apontam os regimes fascistas e totalitaristas como o berço da massificação da população. Estes regimes apelavam a grandes quantidades de pessoas e moviam massas. Algo, até então, inexequível. Isto só foi possível também graças ao desenvolvimento das tecnologias de informação e da propaganda.

Com isto, levanta-se a questão da luta entre regimes e ideais. A esquerda e a direita, o Comunismo e o Capitalismo. Isto não é mais do que uma redução da realidade. E a redução da realidade forma perigosos preconceitos que motivam a opressão, a injustiça e as guerras.

Esta discussão de ideais resume-se a uma discussão sobre qual a maneira correta de viver, sobre quais os valores que devem prevalecer na sociedade, qual a melhor forma de organização da sociedade. Mas as tamanhas diferenças entre ideais formam um fosso irreconciliável que torna impossível a concordância sobre quais os valores coletivos e eternos que devem prevalecer na civilização. Aliás, a noção de eterno morreu aquando ao nascimento do niilismo.

A dimensão politica é motivada por interesses particulares e pela lei da cobiça dos que detém o poder. E a existência destes interesses atentam à tolerância, ao respeito e à abertura de espírito.  As mentes politizadas não vêm indivíduos – vêm capitalismo ou comunismo. Mais uma vez defrontamo-nos com a perigosa redução da realidade.

A questão que se coloca em cima da mesa já não é o significado da vida humana, para a qual os humanistas tentavam encontrar resposta. Agora a questão que se coloca é qual o objetivo da vida humana. Ser feliz, será a resposta. E a dimensão politica estará pronta a assegurar a nossa felicidade. É aqui que reside o problema. A felicidade e o domínio do intelecto não devem estar completamente subordinados à dimensão politica. Esta é meramente orientada pelos seus interesses. E dos interesses alheios não surgirá a felicidade do coletivo.

Também a dimensão económica é marcada, no presente, por um vazio ético, por uma politização da mente humana e por um niilismo prejudiciais à sociedade.

Como referi no post Lets talk about our Enocomic System, as organizações, para além de serem os agentes de desenvolvimento económico, são também responsáveis por assegurar o desenvolvimento social, através da implementação de uma cultura organizacional que sustente determinados valores como o desenvolvimento sustentável, o respeito, o bem comum e a dignidade humana. Esta cultura deve ser também orientada pela verdade e por uma conduta ética.

Está na hora de erradicar a motivação pelos interesses dos shareholders, que se traduzem apenas no lucro e a inexistência de condutas éticas e valores nas organizações que fertiliza problemas como o trabalho infantil, a exploração do homem, a corrupção e consequentemente, a deterioração do tecido social;

O ideal seria que as organizações fossem agentes ativos na conservação e implementação do ideal da nobreza de espírito, no sentido em que estas próprias dominassem a arte de guiar a sua vida em concordância com princípios e valores nobres, justos e moralmente corretos.

Nós, profissionais da comunicação temos a responsabilidade de incumbir valores no seio organizacional, cultiva-los na sociedade através de um esforço global, e, a um nível micro, cultiva-los nas comunidades onde a organização se integra. Isto seria possível se a organização incentivasse e participasse em diálogos com as comunidades, em debates sobre quais os ideais e valores que devem ser preservados e sobre os problemas que devem ser resolvidos.

As organizações precisam de um ambiente (tanto interno como externo) saudável para operarem e exercerem a sua atividade. E, portanto, cabe-lhes a responsabilidade de o construírem. Uma sociedade saudável passa também pela partilha de valores comuns, que são indispensáveis para a existência de relações fortes entre os públicos e as organizações.

Ser corajoso é o que se pede para nunca esquecermos que a dignidade humana reside na nossa faculdade intelectual. Mesmo num mundo onde a nobreza de espírito parece estar a dissipar-se, mesmo num mundo onde os que a carregam parecem estar inevitavelmente condenados.

“Não foi juntos que chegámos à conclusão que a sabedoria não é senão a união entre a vida e o pensamento, que só as nossas ações podem demonstrar se somos verdadeiramente sábios e entendemos alguma coisa acerca da vida? Uma vida irrefletida não só é insensata como também má, e o conhecimento que nos ensina como viver é de longe o mais importante.” Sócrates, no seu discurso antes da atribuição da sua pena de morte.

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