Que Conflito Trava a Humanidade?

 “Todas estas populações, diferentes pela religião, pela cor, pela língua, pela historia, pelas tradições, e que a evolução obriga a que andem lado a lado permanentemente, saberemos nós fazê-las viver juntas de maneira pacifica e harmoniosa?”

 – Amin Maalouf

Quero hoje abordar assuntos muito atuais que parecem ter sido esquecidos na agenda dos Órgãos de Comunicação Social. Entre eles, a questão, das minorias e dos conflitos que surgiram entre sociedades após o fenómeno das emigrações em massa.

Amin Maalouf afirma que vivemos perante um desregramento dos vários domínios do mundo. Desregramento que fomenta o ódio, a intolerância, os conflitos culturais, as crispações identitárias, o racismo, que põe em causa os “valores universais” proclamados pelo Ocidente e que demonstra uma regressão moral impetuosa.

Todos nós já conhecemos, de forma direta ou indireta, este mundo que se agita e que faz cair por terra a solidariedade, a tolerância e o respeito.

 

São vários os acontecimentos e os fatores que contribuíram para a atual situação. Vejamos:

O fim da Guerra Fria. Para muitos, o seu fim traria finalmente prosperidade e paz ao mundo. Mas na verdade a afirmação do Capitalismo como modelo universal e a queda do Comunismo constituiu um motivo para cessar debates sobre qual a ideologia que deveria prevalecer e que traria maiores benefícios à humanidade. Afinal, só um deles sobrevivera e não havia alternativas à vista. As diferenças ideológicas deram lugar às divergências identitárias, algo bem mais problemático de se debater.

As nações que se viram sob a hegemonia das potencias capitalistas vitoriosas refletem claramente a questão das crispações identitárias. Um dos problemas fulcrais que preocupavam estas nações era a questão sobre como se poderiam modernizar sem ceder à hegemonia dos Estados Unidos da América, sem perder valores culturais característicos e sem perder a sua identidade.

Esta questão das divergências identitárias entre nações dominantes e nações dominadas favoreceu o aparecimento de regimes radicais, nomeadamente nos países muçulmanos, que vieram impor resistência à uniformização segundo os padrões do Ocidente.

Isto orienta-nos para uma outra questão que tem uma importância relevante no problema: A legitimidade. Esta resistência face aos EUA, por parte destes países, reflete a sua ilegitimidade enquanto potencia mundial. As nações árabes não reconhecem legitimidade na potência hegemónica devido, principalmente, às más relações que o Ocidente estabeleceu com estes países, desde a época colonial.

O Ocidente teve um desejo dominante de incutir os seus valores universais nestas civilizações, contudo, o próprio não os cumpria. O incumprimento dos seus próprios valores traduz-se na incapacidade de demonstrar o que é a democracia, a liberdade, a tolerância e o respeito a estes povos, que se viam discriminados.

Para contornar o comportamento disruptivo dos povos árabes face à sua supremacia e de forma a contornar a sua queda económica os EUA recorriam ao “hard power, às suas forças militares, de forma a demonstrar a sua superioridade, que ia sendo derrubada pela crescente economia da China. As guerras levadas a cabo no Afeganistão são um exemplo claro. O domínio militar exercido pelos EUA dificultou mais ainda a construção de relações solidas com o Oriente.

O Ocidente contribuiu para o problema dos conflitos entre civilizações, na medida em que se revelou incapaz de formular e de transmitir valores universais, incapaz de gerir a diversidade cultural e incapaz de encarar um futuro conjunto com o Oriente.

“O seu [dos EUA] drama, hoje como ontem, e desde há séculos, é que sempre esteve dividido entre o seu desejo de civilizar o mundo e a sua vontade de dominá-lo – duas exigências inconciliáveis.”

– Amin Maalouf

Os erros do Ocidente aliados à dissimulação dos dirigentes desses países, que eram vistos como ilegítimos pelo povo árabe, propiciou o nascimento e a expansão de regimes radicais, nacionalistas, que mais uma vez incentivam a intolerância face ao Ocidente e até mesmo, intolerância face a outras minorias árabes. Esta intolerância face aos seus próprios “irmãos” é motivada principalmente pela religião, que na cultura árabe, está intrinsecamente vinculada ao domínio politico e governativo.

As crispações identitárias, muitas vezes influenciadas pela religião, fazem crescer o número de vitimas de hostilidade e difamação, quando emigradas para países do Ocidente. As minorias, ao longo da historia foram perseguidas, ostracizadas e exterminadas e com a sua perda, perdeu-se também uma parte cultural da humanidade.

Quando falo aqui de religião é importante esclarecer que é o homem que influência a religião e não a religião que influencia o homem. E, por isso, a religião é muitas vezes usada como pretexto para projetar os interesses do homem, a nível politico e económico. Isto para dizer que, até hoje, nunca conheci uma religião que incentivasse o ódio e a intolerância.

A análise destes pontos pode-nos levar a concluir que estamos perante uma dimensão moral atrasada que foi incapaz de acompanhar os avanços da dimensão tecnológica. Uma dimensão moral que foi obscurecida pelos interesses individuais.

Existe claramente um problema com grande peso na matéria: a dificuldade em gerir a diversidade cultural e identitária dos povos do mundo. Isto, por si só, já é meio caminho andado para um fim desastroso da humanidade.

O outro meio caminho para a destruição da humanidade é a perda da legitimidade, que tenho vindo a falar ao longo do post.

Estamos, portanto, perante a emergência de um mundo onde as clivagens identitárias superam as clivagens ideológicas e o surgimento de uma única superpotência que exerce no planeta uma soberania mal-aceite.

Retomando então a questão da legitimidade:

“A legitimidade é o que permite aos povos e aos indivíduos aceitarem sem um excessivo constrangimento a autoridade de uma instituição personificada por homens e considerada como portadora de valores partilhados.”

– Amin Maalouf

Portanto, a legitimidade advém do respeito mútuo e da dignidade moral entre a entidade de poder e o povo. Mas se esse alguém, dono de legitimidade, dececiona, perde a legitimidade tao depressa como quanto a ganhou.

Hoje em dia, somos governados por entidades e indivíduos ilegítimos, sem credibilidade moral e que sofrem da desconfiança permanente dos povos.

Sem legitimidade, instaura-se a rebelião, a revolta e a resistência, como será de esperar. Nenhum povo quer ser conduzido por alguém que não lhe é reconhecida ordem natural, direito ou credibilidade moral.

Contudo, existe um fator que pode atenuar, e até mesmo solucionar a intolerância à diversidade: a cultura e o ensino. Ambos com o propósito de transmitir e propagar valores como a liberdade de expressão, a tolerância pelo diferente, o respeito pelo outro e a solidariedade.

É imperativo que as minorias emigradas não sejam acorrentadas à sua comunidade e à sua religião. Isso reflete o desrespeito Ocidental pelos valores que este próprio defende: a liberdade e os direitos naturais. A rotulação e o comunitarismo propiciam o aumento da clivagem entre as diferentes civilizações. Estas minorias, os povos árabes e tantos mais, carregam consigo um rastilho de desconfiança face ao Ocidente pelas razões acima enumeradas. Para que o Ocidente tenha oportunidade de se redimir, estabelecendo relações benéficas e pacificas com estes povos, este deve incentivar o sentimento de pertença destes povos à experiência ocidental sem que lhes seja retirado o direito de honrar e de se orgulhar das suas origens.

 

“Podeis tornar-vos um de nós plenamente sem deixar de ser vós mesmo.”

– Amin Maalouf

 

Só assim, seguindo esta ideia de respeito e tolerância às diferenças e à dualidade cultural, será possível aproximar civilizações, construir relações solidas e apaziguar hostilidades.

Está visto que a Humanidade chumba às cadeiras de “Gestão de Diferenças Culturais” e de Transmissão e Implementação de Valores Universais”.

Para que a Humanidade supere os atuais conflitos de origem identitária, ideológica, cultural e religiosa, ambas as partes, Oriente e Ocidente, devem mudar comportamentos. Em conjunto, devem tomar uma atitude de solidariedade e de audácia para que se consiga mudar o rumo da civilização humana, que se já tem revelado destrutivo.

Temos ao nosso dispor fatores e instrumentos que até então teriam sido impensáveis e que podem auxiliar na tarefa de repensar a forma sob a qual são construídas relações entre civilizações e sob a qual se orienta o desenvolvimento da sociedade. É preciso elevarmo-nos moralmente ao estado da evolução tecnológica que alcançámos.

É necessário reencontrar a legitimidade perdida, a credibilidade moral, os valores partilhados. Será que o ser humano encontra em si a generosidade e solidariedade para cooperar? Os esforços mobilizados para fazer acontecer as guerras devem ser orientados para pensar assuntos que ameaçam a humanidade no seu todo, como o problema das alterações climáticas, que se têm revelado uma ameaça ao ser humano.

“O que teve o seu tempo e que hoje deve ser encerrado é a história tribal da humanidade, a historia das lutas entre nações, entre Estados, entre comunidades étnicas ou religiosas e entre «civilizações» (…) os únicos combates que merecem ser travados pela nossa espécie no decurso dos próximos séculos, serão científicos e éticos.”

-Amin Maalouf

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