Grass Roots Public Diplomacy 2.0

Hoje, neste post, quero trazer de volta um assunto que já aqui expus: Grass Roots Public Diplomacy – Uma nova forma de pensar a Diplomacia Pública.

É minha intenção aprofundar este assunto e dar resposta a algumas questões que levantei no post anterior sobre a nova forma de Diplomacia Pública. Este é um tema que, para além de ser do interesse dos profissionais de comunicação da área da Diplomacia Pública, deve ser um tema discutido e refletido por todos os cidadãos. Por isso quero consciencializar os leitores para a importância da Diplomacia Pública Grass Roots para o desenvolvimento da sociedade e para o melhoramento da condição humana.

Gostaria de traduzir o termo “Grass Roots” mas perderia parte do seu significado. Poderíamos dizer que o termo sustenta a ideia de “base”, de “raiz”. Vamos, mais à frente, perceber o porquê e compreender melhor o seu sentido.

Como já referi várias vezes aqui no blog, vivemos num mundo em constante e rápida transformação. Ao longo destes últimos dois meses abordei vários problemas inerentes a esta transformação. Problemas ligados ao sistema económico, à definição e operação do espaço público, à perda de valores e ao niilismo que se vive atualmente e que se expande para todas as dimensões da vida, aos conflitos regionais e internacionais ligados à intolerância face às diferentes identidades individuais e nacionais, entre outros.

A globalização, nas previsões das últimas décadas, seria um fenómeno que faria com que o ser humano se aproximasse, ultrapassando as suas diferenças e cooperando na resolução dos problemas que ameaçam o planeta e a sociedade.

Contudo, verificamos que, infelizmente, estamos longe desse ideal. Aliás, a globalização veio aumentar o fosso entre culturas e veio agravar conflitos ligados à identidade das diferentes culturas. Estes conflitos são produto da resistência de certos países à homogeneização que a globalização tende a impor.

Com isto, e com a dificuldade do ser humano de ultrapassar a intolerância face à diferença, expandem-se problemas como a xenofobia, o racismo, o nacionalismo e a isolação. Problemas que a globalização pretendia, na teoria, ultrapassar. Algo correu mal e deve ser corrigido, pois estamos a caminhar na direção inversa ao desenvolvimento e à dignidade da humanidade.

Os Governos, que têm como função manter o status quo da sociedade, têm demonstrado uma grave incapacidade na resolução de tais desafios.

As grandes potências, depois de muitos erros aos longo da historia que lhes valeram má reputação e falta de credibilidade, começam a perceber que o jogo da globalização não é ganho através do uso de instrumentos de “hard power” (supremacia militar). Tal estratégia trouxe graves problemas, sendo que, possivelmente, um deles terá sido a onda de resistência que se traduziu no terrorismo.

Num mundo cada vez mais interligado e interdependente, a subsistência e o bem-estar social e económico das nações depende de relações estáveis, fortes e duradouras com os outros participantes no jogo da globalização. Daqui a nasce a Diplomacia, instrumento de soft power utilizado pelos Governos, cujo objetivo passa principalmente por conduzir negociações entre governos e nações. Esta forma tradicional de Diplomacia consiste, na maior parte das vezes, em programas de comunicação baseados em campanhas nos Media que visam persuadir os públicos estrangeiros sobre a imagem que estes constroem de determinada nação. É portanto, uma estratégia que perpetua o método de comunicação unidirecional. Os profissionais de Comunicação sabem que este é o método a evitar se se pretende construir relações.

Mais uma vez, esta estratégia tem se revelado ineficaz na construção de relações, agravando até os conflitos entre as nações e a desconfiança quando o público estrangeiro se apercebe que está a ser alvo de persuasão e manipulação de outras nações que atendem aos seus interesses.

Esta noção de Diplomacia tornou-se obsoleta porque não tem sido eficaz no alcance dos objetivos pretendidos. Além disto, cresce a descredibilização nos governos pela sua incapacidade de responder aos desafios atuais e de encontrar soluções para os problemas sociais que se agravam a cada dia. Os cidadãos já não confiam nos órgãos governamentais e os problemas associados à globalização como a xenofobia e a isolação agravam-se.

É necessário abandonar este método e traçar uma nova estratégia se o ser humano pretende ultrapassar os problemas que ameaçam a dignidade humanidade. É necessário reformular a forma de Diplomacia que tem sido praticada.

Nasce então uma nova forma de Diplomacia, a Diplomacia Pública (DP). A Diplomacia Pública vai para além da ação da esfera do governo. Esta estende-se a instituições não governamentais e a cidadãos comuns e o seu método foca-se em formas em que os governos, agindo deliberativamente através de indivíduos privados como os cidadãos e através de organizações e instituições, comunicam com cidadãos de outras sociedades.  É uma forma de atrair os públicos estrangeiros através de diversas formas de interações culturais e ideológicas como tema base a cultura popular, a moda, o desporto, a educação ou a Internet. Estas interações são encorajadas e facultadas por Exchange Citizen Programs, programas do âmbito educacional e informacional (como o nosso conhecido programa Erasmus), por programas de promoção artística e por programas de promoção dos interesses nacionais de um país, que se baseiam na compreensão, na informação e na influência de públicos estrangeiros.

Portanto, a Diplomacia Pública não só promove as politicas e os valores de uma nação particular, mas também constrói consenso e facilita a compreensão mútua entre públicos além-fronteiras.

Esta forma de Diplomacia é claramente uma forma de soft power, que tem sido explorada nos últimos anos pelos países e cujas teorias têm sido desenvolvidas por vários autores e especialistas em Diplomacia Pública, como Payne, Johnsen, Kim e Fitzgerald.

Payne leva mais além a noção de Diplomacia Pública. O autor  acredita que os cidadãos e as comunidades locais têm o poder de encontrar a solução para os atuais problemas.

A Diplomacia Pública Grass Roots emerge deste pensamento. Esta forma de DP vai para além da promoção das politicas externas e tem como objetivo melhorar a condição humana, resolvendo problemas que surgem do fenómeno da globalização. O termo Grass Roots descreve precisamente o facto de que estas iniciativas não têm origem nos governos, mas sim, nos indivíduos e nas comunidades locais. Um extenso corpo de literatura na área já demonstrou que as interações cara a cara favorecem a compreensão mútua e a afinidade entre nações e culturas. As pessoas estão mais recetivas a aceitar os outros, a encontrar semelhanças nos outros e a questionar menos as diferenças num contexto de comunicação cara a cara. Estes factos servem de incentivo à mudança de estratégia de comunicação da tradicional Diplomacia, que se baseia maioritariamente em campanhas de Media de persuasão, para uma estratégia de comunicação de interação interpessoal na qual os programas educacionais e culturais devem desempenhar o papel central na Diplomacia Pública, para que os públicos estrangeiros melhor compreendam as politicas e os valores nacionais dos outros países.

Os cidadãos, segundo Johnsen, são os mais poderosos diplomatas públicos. A maior parte dos cidadãos consideram-se atualmente cidadãos globais que devem, portanto, desempenhar um papel ativo na resolução de problemas tanto locais como globais. Os cidadãos devem desenvolver iniciativas e devem eles próprios ser envolvidos na tomada de decisões pelas organizações e instituições governamentais e não governamentais e na resolução de problemas. Isto implica um processo de cooperação entre cidadãos, organizações e governos.

A Diplomacia Pública Grass Roots refuta o sistema de comunicação unidirecional e favorece um sistema de comunicação sinergético com os públicos, na medida em que este modelo favorece a troca de feedback e implica um processo deliberativo onde os cidadãos estão envolvidos e onde devem ponderar acerca dos problemas que devem ser resolvidos e como devem ser resolvidos.  A DP Grass Roots favorece também a construção de um espaço público local e global que incentiva a comunicação e a deliberação. A construção de soluções para os problemas só é possível se os cidadãos adotarem uma posição de liderança e desenvolverem o pensamento critico e criativo.

Para além de depender de um modelo de comunicacional sinergético, os esforços da Diplomacia Pública dependem também de lideres com um ethos forte e marcante, credíveis e confiáveis . A credibilidade é o elemento mais importante para a construção de relações duradouras e estáveis. Por isso vemos muitas vezes caras conhecidas a liderar campanhas e iniciativas que visam a resolução de problemas locais e globais. O facto de o líder da iniciativa possuir uma boa reputação, credibilidade e influência facilita a aceitação de tais programas por parte dos públicos e facilita a sua expansão.

A construção de relações duradouras e de confiança entre os públicos envolvidos nos programas de Diplomacia Pública possibilita a resolução de conflitos e  a resolução dos problemas associados à imagem de um determinado país. A Diplomacia Pública Grass Roots baseia-se precisamente na construção de redes de relações entre cidadãos internacionais que permitem o contacto interpessoal. A construção de relações e a comunicação entre públicos estrangeiros deve ser pensada estrategicamente na medida em que é necessário ter em conta as diferenças culturais e ideológicas dos diferentes indivíduos. Estas diferenças têm implicações nas formas de comunicação e ação dos programas e das iniciativas. A comunicação aqui desempenha um papel de compreensão e aceitação das diferenças. Só é possível estabelecer relações estáveis e duradouras entre as partes havendo um quadro comum com o qual ambas as partes se identifiquem. Este quadro de identificação será os valores que ambos os públicos de diferentes culturas partilham. O quadro de valores deve ser identificado e usado a favor da construção de relações e a favor da compreensão mútua. Payne diz que a DP Grass Roots foi pensada para acentuar as semelhanças que as culturas partilham não as diferenças.  O facto de a DP Grass Roots acentuar as semelhanças incita a construção de pontes que ligam e aproximam os indivíduos com diferentes crenças e culturas. Para além do quadro de valores partilhados entre culturas, a DP Grass Roots exige também uma comunicação aberta e honesta que ajuda a substituir o medo e a intolerância face às diferenças do outro pela confiança e compreensão.

A formação de redes de relações é hoje potencializada pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), que facilitam a ligação entre indivíduos e a disseminação de informação. As TIC proporcionaram a possibilidade da emergência da “Aldeia Global” e, consequentemente, dos Cidadãos Globais. Os cidadãos cada vez mais acreditam que têm um papel a desempenhar na transformação do mundo e na resolução de problemas e conflitos.

A DP Grass Roots é, em resumo, uma forma de Diplomacia que privilegia a liderança dos cidadãos e das comunidades na procura de soluções para os problemas da sociedade em detrimento dos governos e dos profissionais da esfera diplomática. São os cidadãos que devem desenvolver programas e iniciativas ao nível local, devendo estas ser apoiadas pelas organizações e governos. A DP Grass Roots implica um sistema de comunicação sinergética e processos deliberativos que incentivam um ambiente mais democrático e menos autocrático. Os quadros de valores partilhados e uma comunicação aberta e honesta entre culturas devem ser a base para a criação de relações baseadas na confiança, na compreensão e na tolerância.

Ao se construir redes de relações e ao se cooperar para encontrar soluções para problemas sociais, a Diplomacia Pública gerada ao nível Grass Roots é uma das formas mais eficazes dos países mostrarem a sua identidade, de mostrarem quem realmente são. No fim, estar-se-á a atingir um dos objetivos principais da Diplomacia Pública: a construção de uma imagem nacional positiva.

As organizações e as empresas beneficiam ao participarem em tais iniciativas Grass Roots. Antes de mais, como já abordei em posts anteriores, as empresas são agentes de desenvolvimento económico e, como tal, têm responsabilidade na construção e manutenção de uma sociedade saudável. Podem fazê-lo ao participar nestas iniciativas. As empresas poderão desempenhar um papel fulcral ao ajudar a orientar e a implementar as iniciativas e os programas pensados pelos cidadãos e comunidades que procuram corrigir problemas para que a sociedade caminhe na direção correta. A sua participação em tais iniciativas ajudará, por isso, à construção de um ethos forte e de uma identidade baseada na credibilidade, na cooperação e na preocupação com a sociedade. O envolvimento nas iniciativas Grass Roots trará beneficio a todos os envolvidos, visto que numa sociedade saudável, o desenvolvimento é mais propicio.

Portanto, a Diplomacia Pública é uma ponte humana entre culturas, religiões, ideologias e organizações que ajuda a preencher lacunas sociais: “Bridging the Gap” .

Contudo, existe um potêncial obstáculo a este tipo de pensamento que envolve a cooperação e a criação de redes de relações para a construção de soluções a nível local e global. Os Media, como já foi aqui muito falado, controlam a opinião pública e substituem os assuntos de interesse público por assuntos de entretenimento, comprometendo assim a vontade dos cidadãos, as suas capacidades de análise e pensamento critico e o teor de verdade da realidade.

Apesar de ser uma barreia, a reorientação dos Media para assuntos de interesse comum poderá ser uma força complementar importante ao desenvolvimento do pensamento critico e criativo dos cidadãos e, consequentemente, ao desenvolvimento de iniciativas Grass Roots.

Mas como, na prática se materializam os programas e iniciativas Grass Roots?

Existem vários programas e iniciativas de DP Grass Roots que tiveram resultados de sucesso. Apresento-vos dois casos:

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O Festival Internacional de Teatro Short + Sweet demonstra que, através das artes e do intercâmbio entre pessoas, os cidadãos podem potencializar a compreensão e cooperação internacional e intercultural. O festival Short + Sweet teve lugar pela primeira vez em Sydney, na Austrália, em 2002, e foi pensado pelo diretor criativo Mark Cleary e uma pequena equipa de artistas de teatro australiano. O festival fez sua estreia na América do Norte de 8 a 25 de setembro de 2016 em Los Angeles, depois de se realizarem mais de 50 festivais de artes cénicas por toda a Austrália e por todo o mundo, incluindo nos Emirados Árabes Unidos, na Índia, na Malásia, na Nova Zelândia, nas Filipinas, em Singapura, no Zimbabwe entre outros.

Agora, um fenómeno internacional, o Short + Sweet apresentou cerca de 5.000 obras originais de teatro, dança e música e o talento de cerca de 3.000 escritores e 25.000 atores, diretores, compositores, músicos e dançarinos em todo o mundo. O Short + Sweet estabeleceu sistemas de regras gerais a serem seguidas pelos diretores dos festivais internacionais, que fornecem as melhores práticas e ajudam o festival a manter a sua essência Australiana. Os diretores dos festivais locais podem depois adaptar o festival para que este reflita a estética da sua cultura local.

O Short + Sweet pretende construir um mundo mais criativo e interligado. A iniciativa pretende apresentar às audiências globais teatro divertido e desafiador, enquanto que, ao mesmo tempo, oferece a valiosa possibilidade a escritores, atores e outros artistas de construir redes de relações internacionais, enquanto elevam a sua arte ao próximo nível. Consequentemente, desenvolveu-se uma maneira única de aprimorar o soft power australiano, levando o formato artístico e a paixão por artes cénicas da Austrália a nações de todo o mundo.

Short + Sweet é um exemplo de como um projeto da autoria dos cidadãos pode eventualmente materializar-se nas mãos de diplomatas profissionais que têm o know-how para expandir o seu alcance. Michael Wood, cônsul geral da Austrália em Chicago, viu pela primeira vez um festival de teatro Short + Sweet em Singapura, onde desempenhava a função de Alto Comissário Adjunto. Mais tarde, trabalhou com Cleary para levar o festival à India.

Sabe mais em: https://www.shortandsweet.org/

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Um outro exemplo de uma iniciativa Grass Roots é o programa Saudi Young Leaders Exchange Program (SYLEP) que se revelou uma mais valia na construção de relações entre os EUA e a Arábia Saudita e na apreciação das diferenças culturais.

O SYLEP é uma experiência de liderança de várias fases para alunos universitários sauditas. A Fase 1 é um programa de três semanas baseado nos EUA e a Fase 2 consiste na implementação das aprendizagens que adquiriram nos EUA: quando os alunos voltam à Arábia Saudita realizam um projeto inovador que planearam na sua estadia nos Estados Unidos.

Os participantes no SYLEP desenvolvem um perfil empresarial através do desenvolvimento de competências de eficácia no local de trabalho, além de polirem as capacidades necessárias para o sucesso profissional. Os alunos envolvidos observam organizações não governamentais, entidades governamentais e empresas e oferecem soluções às necessidades das comunidades através de iniciativas inovadoras participadas tanto pelo governo como por entidades privadas.

Ao longo do programa, os participantes envolvem-se em experiências estimulantes enquanto interagem com alunos universitários americanos, clientes de programas, famílias de acolhimento e líderes comunitários. Os participantes desenvolvem capacidades de liderança, de criação de programas criativos, de pensamento crítico e de envolvimento da comunidade, ao mesmo tempo que desenvolvem o respeito e apreciação pela diversidade. Os participantes visitam várias organizações e empresas, aprendem diversos modelos de projetos.

Sabe mais em: http://www.legacyintl.org/our-programs/saudi-young-leaders-exchange/

Deixo aqui também um vídeo que ajuda a explicar no que consistem as iniciativas Grass Roots e mais alguns links uteis.

Center on Public Diplomacy: http://uscpublicdiplomacy.org/

GrassRoots Diplomat: http://www.grassrootdiplomat.org/#home

Enquanto comunidade global temos uma escolha a fazer. Enquanto Relações Públicas, escolho-o ser para a Humanidade.

Grass Roots Public Diplomacy: “to further understand through communication.”

– Payne (2005)

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