Isto não é um diário – é um blogue

Quero hoje falar-vos um pouco sobre uma compilação de textos fabulosos que li esta semana e do seu autor genial.

Os textos fabulosos pertencem à Obra Isto não é um Diário, e o seu autor genial é Zigmunt Bauman.

Esta obra reúne pequenos textos que Bauman foi escrevendo ao longo de 7 meses, entre setembro de 2010 e março de 2011. Os textos que compõem a obra e a forma como estão datados fazem lembrar uma espécie de diário. Mas os textos não são uma projeção da sua autobiografia. São antes observações e reflexões pessoais sobre temas que foram surgindo ao longo do período em que o autor escrevia. Os temas de reflexão passam pela crise da dimensão politica e da democracia no mundo contemporâneo, pela crise financeira que assombra os EUA o mundo, pela podridão do mundo de Wall Street, pelo problema que as minorias enfrentam na sua integração na sociedade ocidental, pelas guerras que são travadas em nome da paz, pelo caminho em que as relações humanas caminham, pela desordem da ordem social, entre muitos mais.

O autor consegue, através da análise e reflexão de temas modernos e específicos, fornecer uma visão e uma critica mais abrangente sobre o próprio carácter do ser humano, sobre a sua contingência e sobre a crescente efemeridade de tudo o que nos torna humanos, no tempo e no espaço.

Ao longo da leitura o autor mostra-nos o carácter ambíguo, egoísta e pouco refletido do ser humano, e o crescente individualismo que invade as nossas vidas e que afasta o sentido de relações partilhadas e do coletivo em detrimento do individual, que depois se traduzem nos eventos e nos problemas que o autor analisa nos seus textos. Um dos aspetos que mais me cativou nestes curtos textos e que fez com que eu os lesse em apenas 3 dias foi, sem duvida, a ironia inerente ás criticas que o autor apresenta ao longo na análise dos temas. São simplesmente brilhantes e intelectualmente deliciosas.

Os textos são de fácil leitura, cativantes e geniais, indicados para quem gosta de refletir sobre os problemas e os eventos do mundo moderno e sobre a natureza do ser humano. Confirmando o que Steven Poole disse acerca da obra de Bauman, os seus textos dariam, de facto, um excelente blogue.

O autor, Zigmunt Bauman, nascido a 19 de novembro de 1925, (tendo atualmente 91 anos) é um dos mais prestigiados sociólogos dos últimos tempos.

Originário da Polónia, Bauman e a sua família de origem judaica tiveram que fugir para a União Soviética devido às perseguições e invasões nazis. Combateu na Segunda Guerra Mundial pela URSS e foi um grande apoiante do Comunismo durante o pós-Guerra. As suas criticas ao capitalismo e ao consumismo revelam claramente este facto biográfico sobre o autor.

Enquanto trabalhava para a Internal Security Corps (KBW) como oficial politico, Bauman estudou sociologia na Academia de Ciências Sociais de Warsaw e prosseguiu depois os estudos na área da filosofia na Universidade de Warsaw, onde mais tarde se tornou professor. Devido ao movimento antissemítico, em 1968, na Polonia, Bauman foi obrigado a deixar o país e o seu cargo de professor e a abandonar a cidadania polaca. O autor mudou-se para o Iraque onde se tornou professor na Universidade de Tel Aviv antes de ser convidado a lecionar sociologia na Universidade de Leeds, em Inglaterra, onde vive atualmente.

O trabalho de Bauman foca-se sobretudo na reflexão sobre a globalização, a pós-modernidade, o consumismo e sobre as relações “liquidas” da sociedade moderna. Entre as suas obras destacam-se: Modernidade e Holocausto, Amor Liquido, Medo Liquido, Identidade, Babel e Ética pós-moderna.

É impossível analisar aqui todos os textos da obra, por isso quero dar-vos a conhecer dois dos textos que mais me cativaram e quero refletir um pouco sobre eles.

 

14 de setembro de 2010

Sobre multitarefas

Bauman é, como já referi, um ávido critico ao mundo consumista que se impôs nas últimas décadas. A minha geração vive na aurora da época consumista. A grande preocupação dos “homens de negócio”, já que a oportunidade se deu (digo antes, já que eles criaram a oportunidade), é aumentar o volume de consumo por unidade de tempo. A forma mais básica deste pensamento revelava-se na possibilidade de, por exemplo, consumir fast food enquanto se assistia filmes ou se conduzia carros. Mas a ambição tem sempre que ir mais longe. É possível canalizar diferentes sentidos estimulantes do prazer para o consumo de diferentes bens, sendo que nenhum deles exige concentração plena e total. O mercado de consumo encontrou a sua “pedra filosofal”: a capacidade de multitasking (ou multitarefas). Eis a resposta para a equação matemática do aumento dos lucros. E mais recentemente, passou a integrar nesta equação o elemento essencial que faz aumentar exponencialmente os lucros: os smartphones. Pois é. Quantos de nós não estamos a estudar na companhia constantemente dos nossos smartphones? Caso os estudos não estejam a realizar as nossas vontades e necessidades pessoais sempre nos podemos virar para o smartphone, mas claro, sem nunca perdermos a concentração nos estudos! É realmente isto a essência do multitasking. E claro que sou também culpada.

Mas “aprendeu rápido, rápido esqueceu”. Agora a sabedoria é a curto prazo. A nossa capacidade de herdar, manter, guardar, preservar, transmitir e cuidar das coisas decaiu com o nascimento desta nossa nova capacidade de multitasking. Esta capacidade acelera a aprendizagem, mas torna-a redundante.

 

21 de setembro de 2010

Sobre ciganos e a democracia

Este texto é, provavelmente, o meu predileto de toda a compilação.

O mundo está repleto de estranhos. “De elementos que resistem à assimilação e à classificação”. E como a experiência humana revela, a resposta da sociedade à estranheza é exterminá-la. Porque os estranhos provocam ansiedade e medo, visto que são peculiares, imprevisíveis e sustentam formas de vida diferentes das dos padrões do ocidente. E como Bauman observa muito bem (e ironicamente): “Não havendo como saber de que forma descodificar a sua conduta e as suas intenções, sentimo-nos…ignorantes e impotentes. (…) E sentir-se ignorante e impotente é uma condição indigna, humilhante! É como se a própria presença de estranhos ofendesse e negasse a nossa dignidade. Não admira que surja um desejo de que desapareçam, apenas para se recuperar a tranquilidade e o equilíbrio mental.”

E como uma boa sociedade repleta de interesseiros e oportunistas, os políticos aproveitam por satisfazer as necessidades das pessoas, lucrando com a intranquilidade dos “estabelecidos” perante os “outsiders”.

E os Roma, uma comunidade cigana, desempenham o pretexto ideal para tal ideia. Esta comunidade é nómada e por isso não cria raízes na população local, tornando-se assim um elemento dispensável da paisagem familiar. Além disto, são ainda desfavorecidos pelo facto de se destacarem de outras minorias por serem uma comunidade “gritante” e bem visível por onde quer que passe. “São visíveis, mas não vistos. Audíveis, mas não ouvidos.”

O facto de o Estado não conseguir por mão no sistema económico e fornecer soluções a muitos dos problemas que surgem da desregulação do sistema económico e que causam problemas graves na sustentabilidade e no desenvolvimento do homem, o Estado procura outras fontes de legitimidade que não as fontes económicas. Já que o Estado não é capaz de fornecer proteção e combater as incertezas face ao comportamento dos mercados, há de ser capaz de fornecer proteção individual ao povo face às inseguranças que nascem da coabitação com comunidades estranhas! O Estado, o guardião do povo. “Culpar os emigrantes por todos os aspetos do mal-estar social é uma tentadora fonte alternativa de legitimação de um governo.”

Bauman faz referência a Nicolas Sarkozy, antigo primeiro ministro francês que materializou esta forma de legitimação artificial enviando a comunidade Roma de volta para os seus países originários, garantindo assim, a tranquilidade da população francesa.

O facto de a democracia se revelar incapaz de proporcionar liberdade e proteção às minorias, fez com que se revelasse muito há quem das espectativas, oferecendo bem menos do que se esperava. O autor complementa o declínio do esplendor da democracia com um outro fator: “(…) a sangrenta desordem provocada pelas guerras travadas no Iraque e no Afeganistão em nome da democracia contribui para abalar a sua reputação. Em particular quando a ela se justapõe o regime chinês, estável, eminentemente pacifico, e antimilitarista, embora ditatorial, responsável por um crescimento económico de 10% ao ano.”

A democracia virou as costas ao espaço público e ao dever de o cidadão cuidar do bem comum. Os lideres mundiais da democracia são atualmente cúmplices do desrespeito aos direitos humanos. A democracia falhou em favorecer o diálogo, a compreensão mútua, a cooperação e a solidariedade. Falhou em defender os valores que lhe deram vida.

Com esta reflexão, Bauman constrói uma crítica clara à democracia e ao homem. Será realmente este o sistema politico e social adequado aos tempos de interdependência global em que vivemos? Culpa Bauman o sistema ou o ser humano que falha nos seus deveres?

 

Com estes dois pequenos sneak peeks dos textos de Bauman espero ter-vos desperto a curiosidade e espero ter revelado um pouco sobre a forma como o autor observa, analisa e apresenta as suas reflexões sobre o atual estado do mundo. O autor aborda vários temas e as suas observações são realmente pertinentes e suscitam no leitor um momento de reflexão individual, que, num mundo tão agitado, são escassos e devem, por tanto, ser de novo incentivados.

Pois como aqui no blogue já vimos, a verdadeira nobreza de espirito é a capacidade de pensamento, de reflexão. A capacidade intelectual do ser humano. Não podemos negligenciar esta virtude, ainda por mais num momento tão critico como o qual em que a sociedade se encontra.

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