Carta aberta à UE sobre a imigração e o islamismo

        A Europa abriga, atualmente, cerca de quinze milhões de muçulmanos. A maior parte destes vivem ameaçados sob o olhar racista e xenófobo do cidadão europeu. A Europa, o tal aclamado paraíso intelectual, a fonte da nobreza de espírito e da dignidade humana, o centro cultural da espécie humana… Falamos da mesma divindade Europeia quando se levanta a questão da integração desta comunidade?

        Olhando para as últimas décadas, os muçulmanos da Europa moderna revelaram capacidades notáveis na construção de comunidades e nos seus processos de institucionalização. Apesar das grandes conquistas destas comunidades, a crescente ameaça do fenómeno do terrorismo no mundo veio destruir o estado de harmonia em que, até então, as comunidades muçulmanas viviam com o mundo ocidental.

        O grande problema é que a comunidade muçulmana é muitas vezes percecionada como uma ameaça para a sociedade ocidental devido aos crescentes atentados terroristas que os radicais reivindicam em nome do Islão. Isto, para quem pouco conhece este povo, para quem pouco compreende os seus hábitos e costumes históricos e para quem pouco compreende a sua religião é suficiente para tomar a parte como o todo. O que é realmente ameaçador para a dignidade humana é a ignorância e não o povo muçulmano.

        Olhemos para esta comunidade pouco compreendida. Abandonou os seus países de origem à procura de refugio da guerra que aos poucos e poucos consumia a sua liberdade e a sua felicidade. Abandonou os seus países que nada lhes tinha para oferecer e partiu à procura de melhores condições de vida. Pais que deixaram tudo para poderem proporcionar aos seus filhos uma vida melhor. Quanta coragem é necessária para abandonar o seu lar, a sua família, a sua historia e a sua identidade para que sejam acolhidos num outro pais que, ainda os encara como uma ameaça?

        Um povo que adotou certos hábitos e padrões de vida europeus para que mais facilmente se integrasse e fosse acolhido pelos países ocidentais. Um povo que luta diariamente por se manter fiel às suas origens, mas que é repreendido por praticar aquilo que nasceu com eles. Que luta diariamente para que as suas dores, o seu sofrimento e as suas dificuldades sejam compreendidas por aqueles que preferem fechar os olhos à verdade e abrir as portas do coração à ignorância e ao desprezo.

        As grandes religiões têm todas o mesmo objetivo: criar um mundo mais harmonioso, mais fraterno, mais equilibrado e criar uma cultura de paz. Apenas os caminhos para lá chegar é que diferem. Aqueles que pensam que o islamismo é a fonte do terror que se vive nos dias de hoje deve urgentemente compreender que aqueles que cometem atos de terrorismo em nome do islão não são verdadeiramente muçulmanos. Quantas vezes, ao longo da historia, a religião cristã não foi usada como “testa de ferro” para se protagonizarem disputas do domínio politico? Quantas fações da religião cristã não se radicalizaram, em nome da politica, e cometeram atos desonrosos para a espécie humana? Mas o ser humano conseguiu perceber que os “bons cristãos” não devem pagar pelos atos dos “maus cristãos”. Porque não consegue o ser humano perceber que os “bons muçulmanos” não devem pagar pelos atos dos “maus muçulmanos”?

        A história repete-se: a religião islâmica está a ser usada como um meio para atingir interesses políticos, interesses de poderio e, apesar de o ocidente já por isso ter passado, prefere fechar os olhos e não ver a verdade. Prefere acusar os muçulmanos por atos não muçulmano e a religião por atos não religiosos.

        Quem mais sofre com os atos de terrorismo que assombram a década e que ameaçam constantemente a segurança e a felicidade do ser humano, é o povo muçulmano. O povo que vê a sua mais valiosa herança, ser violada, desonrada e usurpada pelos radicais que a usam como motivo para os seus atos de loucura e maldade selvagem. A comunidade muçulmana é injustamente julgada enquanto apenas procura o que todos nós, ocidentais, procuramos: um sentimento de pertença, possibilidades e oportunidades, segurança e paz.

        Devemos deixar de olhar esta comunidade como uma ameaça e olhá-la como uma oportunidade de elevarmos a dignidade do ser humano. A Europa é hoje um centro onde diversas culturas e religiões se encontram. Esta diversidade deve ser festejada: nunca antes o ser humano teve tantas coisas para ver, para experienciar, para aprender. Nunca antes tivemos esta gloriosa oportunidade de enriquecer o nosso espírito. A diferença deve ser festejada e não refutada. A diferença é o que nos permite construir a nossa identidade. E não precisamos de negar a identidade do “outro” para afirmarmos a nossa.

        O que nos distingue dos animais é a nossa capacidade intelectual. Capacidade que é a verdadeira nobreza de espírito e que advém da liberdade de pensamento, da liberdade de expressão, da tolerância, da justiça e da procura da verdade. Quem somos nós para roubarmos a liberdade a este povo? Liberdades básicas inerentes aos direitos humanos. Porque não fazemos uso da nossa nobreza de espírito que mais tem a ensinar do que a ignorância?

        É imperativo acolher este povo humilde que nada mais quer do que oferecer algo e criar valor à sociedade. É necessário integrá-lo e oferecer-lhe as mesmas oportunidades para que se sintam parte do país que escolherem, no meio de 196 outros, e depositaram todas as suas confianças para que lhes oferecesse algo mais do que a guerra e a infelicidade. É nosso dever fazer com que esta comunidade adote os deveres e direitos que ser cidadão europeu acarreta e dar-lhe também liberdade para que continue a expressar a sua identidade cultural. Porque amanhã poderemos ser nós a passar as mesmas dificuldades.

        Portugal, comparativamente a outros países europeus, tem sido um país exemplar no que toca à receção, acolhimento e integração destas comunidades. É imperativo que continuemos a demonstrar ao resto do mundo o que é a dignidade humana, o que é a liberdade, o que é ser humano. Portugal, mostra ao mundo as tuas marcas muçulmanas e orgulha-te delas! Mostra o que este povo te ofereceu e o quanto enriqueceu a tua história!

Europa, está na hora de olhares para o islamismo como uma religião tua!

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